A Disputa de Cipriano e Gregório (ou Lúcifer x Deus)

Cipriano relutou muito em acreditar em Deus, tanto que debochava de quem pregava a sua palavra. No trecho abaixo, extraído do livro São Cipriano, o Legítimo Capa Preta, você verá o confronto entre Cipriano e Gregório, onde cada um defendeu o seu deus e os invocou.

Neste episódio da vida de Cipriano, podemos notar que ele já se incomodava com a existência de um deus que não era o seu amigo Lúcifer e que vinha conquistando cada vez mais crentes, devido às suas graças realizadas.

Podemos notar também que ele já se sentia preso ao pacto, achando que não havia mais salvação para si, e frustrado por Lúcifer não conceder todos os seus desejos.

A Disputa de Cipriano e Gregório (ou Lúcifer x Deus)

No século III, estando S. Gregório a pregar num templo, passou Cipriano pela porta e disse em voz alta:

— Que pregação está fazendo aquele impostor?

Um dos ouvintes disse a Cipriano:

— É Gregório.

— Ai, ai, que tolice! Que Deus adora este judeu? Em vez de estardes a escutar esse impostor, melhor fora que estivésseis em vossas casas, ocupando-vos em vossos serviços.


S. Gregório, que observou a conversa de Cipriano, sorriu e continuou sua retórica. Quando acabou de falar, S. Gregório foi ao encontro de Cipriano e lhe disse:

— Homem falto de fé e de temor à Deus, não acabas com essa vida de pecado?

— Ai, com a vida de pecado! — falou Cipriano às gargalhadas.

— Sim, com a vida de pecado — afirmou S. Gregório. — Tu, Cipriano, andas iludido com essa arte do demônio, e não a queres deixar!

— Dize-me, amigo Gregório, que Deus é o dos cristãos que são tantas as maravilhas que tenho ouvido contar?

— O Deus que tu adoras é Lúcifer. Aquele que eu adoro é o Deus todo poderoso, que criou o céu e a terra e tudo mais que o sol domina — respondeu S. Gregório.

Cipriano retrucou logo, com um semblante cheio de indignação:

— Pois se tu, Gregório, adoras um Deus mais poderoso do que o meu, defende-te lá com ele das minhas astúcias.

Se tu saíres vitorioso, acreditarei no teu Deus. Porém, se eu for vencedor, serás vitima nesse mesmo instante.

S. Gregório treme e disse para consigo, em pensamento, porém balbuciando:

“Se Deus me desampara, que será de mim! Maldita seja a hora em que vim encontrar-me com Cipriano.

Meu Deus, meu Deus, se agora não me valeis, que será de mim?”

Indignado com S. Gregório pelas súplicas que estava fazendo, Cipriano gritou em alta voz por todos os demônios do inferno e, em poucos instantes, eram tantos, que cobriam a região a uma distância de um quarto de légua em quadrado.

S. Gregório levantou os olhos ao céu e bradou em voz alta:

— Jesus! Jesus! Sede comigo neste momento de aflição!

Instantaneamente, se ouviu um forte trovão, que fez com que se abrissem as portas do inferno, e imediatamente todos os demônios se precipitaram nas profundezas do medonho abismo.

Cipriano, vendo o acontecido, tão lívido de espanto, caiu por terra e assim esteve prostrado durante um quarto de hora.

No fim de alguns minutos, sentiu Gregório um grande tremor de terra, que o fez admirar. Era Lúcifer, saindo da terra, com um caixão de fogo e quatro leões carregando-o.

A vista deste espetáculo, ficou S. Gregório estupefato, porém com a ajuda do Senhor animou-se a dizer a Lúcifer:

— Eu te esconjuro, maldito, da parte de Deus! Dize o que queres aqui?

— Venho buscar Cipriano, respondeu Lúcifer.

— Porventura, maldito, tens poder de te apossares das criaturas viventes?

Respondeu Lúcifer:

— Eu me aposso de Cipriano, que já morreu. Ele é meu em corpo e alma, assim o temos ajustado.

Ouvindo o que disse Lúcifer, S. Gregório orou ao Senhor e falou:

— Eu te esconjuro para as profundas do inferno, que Cipriano não morreu!

S. Gregório tocou nos ombros de Cipriano e disse-lhe:

“Levanta-te, Cipriano!”

Cipriano levantou-se e logo lhe falou Gregório:

— Ainda não te arrependes, Cipriano, dessa vida de pecado? É preciso que um homem seja muito malvado, vendo a mão de Deus a querer salvá-lo e continuar no caminho da perdição!

Resposta de Cipriano:

— E tu, Gregório, não sabes que eu pertenço a Lúcifer, por que tomei pacto com ele, por isso não posso entrar no céu onde entram só os justos e aqueles que não seguem o caminho do inferno?

Retira-te então da minha frente, do contrário, usarei dos meus poderes e das minhas artes diabólicas.

S. Gregório irou-se contra Cipriano e falou palavras muito severas:

— Homem indigno, retira-te da minha presença, do contrário usarei também dos meus meios.

A estas palavras, Cipriano ficou possesso, de repente se cobriu o céu de nuvens, turbaram-se os ares, tremeu a terra e sobre o solo caíram grandes raios, parecendo que o mundo estava se incendiando.

Porém, Gregório, com o nome de Jesus, pisava e destruía as astúcias de Cipriano. Vendo o que acontecia, Cipriano injuriou Lúcifer, o qual apareceu a Cipriano e lhe disse:

— Amigo meu, que queres tu de mim, que estás tão irado contra o teu senhor?

Respondeu Cipriano:

— Tu, Demônio, que poder tens, que não podemos destruir Gregório?

A estas palavras, acudiu o Demônio dizendo-lhe assim:

— Não sabes que Gregório me garantiu que se eu não questionasse com ele, daqui a um ano me daria a sua alma?

Por isso, amigo Cipriano, não me apraz combatê-lo desta forma. Retira-te, e deixa Gregório.

Cipriano meteu a fava na boca e retirou-se para a cidade onde morava.

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